Trecho de Quinta # 31


"A vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos, de feridas que cicatrizam, de amigos que celebram ou choram junto. Feita de pessoas apaixonadas e apaixonantes, possíveis e impossíveis, pessoas que machucam, pessoas que chegam pra curar."

Marla de Queiroz

My Mother In Me

Ela mora em mim. E dorme. De vez em quando desperta, com um pedaço de memória caída no chão, mas logo volta a dormir. Ela mora em mim e às vezes se mexe, procurando uma posição mais confortável. Eu tento não fazer muito barulho. Confesso que, por alguns instantes, quase sem querer, vejo um pedaço do seu rosto ou do seu corpo. E me lembro do quanto é bonita. Ela mora em mim e às vezes fala com a minha voz, sonha com meus sonhos, ri com o meu riso, se move com minhas pernas, abraça com meus braços. Ela mora em mim e ama com o meu coração. Ela e o amor que sinto por ela se misturam na cama macia que existe dentro de mim. Ela morando em mim, me faz melhor. Olho para mim, vejo o meu amor e vejo a mim mesma. Eu me lembro de mim. Lembro da felicidade e da nobreza do amor que construímos. Altruísta, leve, generoso, amor que se faz feliz ao ver o outro feliz. Ela mora em mim e me faz mais forte. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta coragem. Nunca fiz tanto ao mesmo tempo. Ela mora em mim, e faz ainda maior o meu amor por mim mesma. Sou coragem e completude. Ela mora em mim e continuamos sendo duas. Porque ela mora sozinha em mim. E eu continuo respeitando seu espaço, seus motivos, sua solitude. Não pergunto por quê. Não há porquê. Ela mora em mim e será sempre assim. Dentro de mim ela me faz maior para cuidar dos nossos. Dentro de mim ela se faz mais amor para amar o outro. Ela mora em mim com seu amor bonito pelo próximo. Que agora é meu também. Ela mora em mim com sua sabedoria de amar. Ela se mudou para dentro de mim levando seu hedonismo, seu sorriso e sua delicadeza. Acho que me tornou mais alerta também. É bem-vinda a sua inteligente desconfiança. E eu, que era doce, ganhei tempero para ser melhor. Ela mora em mim e apurou meu sabor. Mora em mim com seu olhar feliz para os céus azuis, com seu gosto pelos dias de outono, seus olhos atentos para os traços em desalinho. Ela mora em mim com seu detalhismo sarcástico, sua inteligência charmosa, seu humor (e também seu mau humor) de criança. Ela mora em mim com seu jeito de corpo. E se mesclou comigo, já não sei quem sou eu e quem é ela. Mas sei que somos duas em mim. Ela mora em mim e o meu amor nunca mais foi o mesmo, agora é amor maduro, sensível, amor muito e para poucos. Não mais amor fácil, porque é amor verdadeiro. Ela mora em mim e dorme, de portas abertas, para que esse amor, que é dela, chegue até quem mereça estar ao nosso lado.

Eu e ele - o tempo.

Fico a me perguntar por que em minha vida fica sempre essa impressão de que alguém vai, para que outro possa vir. Volto um pouco no tempo e percebo que estivemos sempre correndo um do outro. Eu e ele - o tempo.
Este parece ter sido o grande desafio: aprender a lidar com o tempo, entender que não sou dona dele. Algumas coisas aconteceram tão tarde, outras tão cedo. Ou muito de tudo ao mesmo tempo.

Metáforas

Você sabe deixar claro o que quer e o que sente. Fica difícil saber a quem puxou, pois seus pais são bravos - e brava também sou. Hoje lembrei de um dia que você ficou bastante contrariada. Não era para menos: tirei você do banho justamente no seu momento mais feliz. Era hora de dormir, minha princesa. Tão cedo a vida nos dá as dicas e tão tarde a gente aprende a aceitá-las. A vida fez exatamente a mesma coisa comigo ao tirar sua avó de mim. Era hora de dormir ou de acordar? Você, no minuto seguinte, já tinha esquecido e estava sorrindo. No meu caso, demorou mais um pouco. Preciso confessar, pequena: eu estava no meio do banho mais gostoso da minha vida.

For my nephews

Sua avó amava viajar. Eu também gosto, mas não sou assim tão solta. Sempre me culpei por isso. Mas agora entendi que ser assim tem o seu lado bom. Nos meus tempos de adolescente eu ficava indócil se não arrumasse um programa no fim de semana. Ficar em casa no sábado à noite era sinônimo de ser esquecida pelo mundo. Quase como ser invisível. Com o tempo aprendi a cultivar meus espaços. Hoje moro praticamente sozinha, e ter minha casa teve uma importância muito grande. É maravilhoso olhar para o seu cantinho e sentir que ele é uma extensão de você. Que à sua volta estão as suas escolhas, as coisas que você ama, um pouco da sua alma. E isso com o tempo melhora, porque você passa a se conhecer mais. Para mim, uma casa aconchegante fala do quanto me sinto confortável em mim mesma. Adoro viajar, meus pequenos. Mas também adoro ficar. Não sei como, mas quero poder ensinar essa sensação pra vocês. Quero muito que vocês sejam felizes. Viajar é maravilhoso, mas é fundamental gostar de voltar para casa.

# Tira de Segunda



Só pq adoro começar a semana com a acidez do Will !