Alienação


As verdades do Will.

Trecho de Quinta # 37



"As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas para mim está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e gradações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas."

A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak)

Presentes

E quando você acha que o dia está perdido, vem uma surpresa boa e te resgata com palavras despretensiosas que, inevitavelmente, te arracam um sorriso bobo e um olhar mais bobo ainda.


Tea & Coffee



Já começou os trabalhos com o vinho, ela pergunta. Ainda não, respondo lamentando. Ando vergonhosamente sem grana, engolindo a seco aquela pindaíba de fim de mês, assediando em vão os bolsos em praça pública, e o supermercado onde compro fiado está fechado. Sendo assim, já viu: pra fingir que estou bebendo algo tão charmoso e simbólico quanto o néctar de Baco, talvez eu faça chá. Nunca fiz chá na minha vida, sou especialista mesmo é em café, o antídoto do cotidiano. Mas hoje não é dia de cotidiano, hoje é feriado nacional, dia de Maria, dia em que todas as bodegas da cidade estão fechadas, dia de ouvir blues, e blues, convenhamos, é uma liturgia que pede whisky, vinho ou, na falta destes, algo que lhes faça frente, como um bom chá, por exemplo, cuja erva ainda não escolhi.



Está sozinho? Praticamente. Quer dizer, depende. Tem um Saramago logo aqui em baixo implorando pela minha atenção e uma leva de gatos no quintal, uma gangue de ladrões de moela de frango, minha parte preferida no ensopado. Se vacilar por um mísero instante com o portão da cozinha aberto, destampam as panelas que ficam sobre o fogão após o almoço com tamanha desenvoltura como se tivessem longos polegares e dedos indicadores... Um deles é nascido há pouco, ainda está mamando, mas já percebi que é o mais astuto do bando, um pilantrinha de marca maior. Sei que você gosta mais de cães do que de gatos - assim como se rivalizam entre nós os Beatles e os Rolling Stones - mas, convenhamos, os cães têm apenas uma vantagem perante os felinos: a fidelidade. Por fidelidade ao seu dono, um solitário e desamparado pinscher é capaz de enfrentar uma alcateia de pit bulls famintos. Já vi vira-lata salvar criança da boca de hot vailer.



Mas como eu disse, nunca fiz chá nessa vida, não tenho chá pré-pronto aqui em casa, tipo aqueles que se compra no supermercado em saquinhos que se penduram na borda da xícara com água quente. O que tenho aqui são algumas poucas ervas - entre as quais não sei sequer distinguir as espécies - e casca de laranja seca. Sabia que se faz um delicioso chá com casca de laranja seca? Minha mãe sempre fazia quando eu era criança. Pendurava as cascas no varal ou na cerca de madeira e lá, por dois ou três dias sob o sol metalúrgico do verão, elas ressecavam. Nunca me explicaram o porquê desse procedimento. Por outro lado nunca quis eu saber, e ainda hoje não o quero: há rituais de família que não se deve explicar. O mundo perdeu certa graça quando passaram a pesquisar e problematizar os mistérios, os ritos, os mitos. Hoje em dia, como aos poucos se tem morrido toda tradição, coisa rara é ver casca de laranja seca aqui em casa. O que impera em nossa cozinha é o tal do boldo, folhas de boldo, chá de boldo, dieta da minha mãe à base de boldo, a pretexto de sérios problemas intestinais. Mas penso eu que nem boldo, muito menos casca de laranja seca combinam com blues, embora eu saiba que a mais profunda origem do blues está em regiões bucólicas da África e, após a migração dos escravos, em regiões bucólicas do Mississippi, onde suponho que boldo e laranja abundavam.
 
Mas, como eu já disse e desdisse, nunca fiz chá, e tenho enfatizado essa minha deficiência alquimista para que perceba que preciso de você aqui, percorrendo descalça os vãos quase nus desta casa, preciso que me ensine a fazer chá, e só assim poderei me realimentar das migalhas da tua voz, como uma rêmora mendigando os restos de comida do tubarão, e quem sabe te ensino a fazer café, meu aclamado café que merece ser degustado nas manhãs pardas e pacíficas de todo o mundo, do Nepal a Tijuana, da África ao Mississipi. Desconfio que entre as ervas que guardo na dispensa deve haver alguns galhotes de camomila, esta sim, convenhamos, desce com mais melindre pelo paladar adentro e soa mais charmosa pela língua afora. E então, dado nosso acordo, você me ensinaria a fazer chá e eu te mostraria o segredo do meu café, fetiche das mulheres que já dormiram comigo, quase uma porção mágica afrodisíaca. Mas não precisa você dormir comigo se não quiser. Por hoje não poderei te pagar um táxi. Quero apenas que me ensine a fazer chá. Que fique aqui por algum tempo me ensinando a fazer chá. E isso me basta, por enquanto.


De Luis Fernando Mifô para mim.

Hugo: A Saga

Eu só fui entender (e acreditar) no ditado que diz "O cachorro é o melhor amigo do homem" quando eu ganhei Hugo. Não, Hugo não foi o primeiro cachorro que tivemos lá em casa, já tivemos Billy, um dálmata lindo. Mas eu, pequena como era sou, meu pai tinha medo de deixar Billy chegar perto de mim pois ele me derrubava no meio da sua felicidade canina (Billy era grandão!). Portanto, eu não tive tanto contato com Billy.

E mais, Hugo é meu, foi dado à mim!  Hugo cabia na palma da minha mão quando o vi pela primeira vez, e foi lá para minha casa ainda filhotinho, com um mês de vida. É tão fofo e amável que conseguiu conquistar o coração turrão do meu pai (tanto é que Hugo, ultimamente, deu para dormir perto do velho). Acompanhei todo seu crescimento, suas travessuras e afins. Hugo faz parte da família, e o amor que sinto por ele é gratuito, e o melhor: é RECÍPROCO! 

Amo a festa que ele faz  toda vez que chego em casa, acho lindo quando ele fica do meu lado quando estou doente (a última vez ele passou o dia e a noite inteira deitado do meu lado, não saiu nem quando painho chamou pra ele comer), amo quando ele vem todo despretencioso à procura de carinho... Enfim: AMO! 

Mas, vez por outra, esse amor chega a ser engraçado. Vida de estudante sabe como é, o dinheiro só dá para xerox e a madrugada só dá para estudar.  Hugo inventou de me acompanhar numa madrugada dessas, e olhem só no que deu:



Decidido a me acompanhar!
Mamãe, posso estudar com você?
Firme e forte!















Mas aí, lá pelas tantas, Morpheu decidiu cobrir Hugo com seu manto...

  Hugo não resistiu e se deitou...

Com o olhar já distante...

... O sono chegou!
 Mas ele, embora dormindo, só foi dormir no seu cantinho (leia-se  debaixo da cama do meu pai) quando eu parei de estudar e fui dormir também.

Tem como não amar?

Um Segundo

Quando você deita a sua cabecinha no meu ombro como se eu fosse a sua casa, reconheço a sensação. O abraço que você busca em mim, eu buscava na sua avó. Eu era você no ombro dela. Acho que família é feita dessa alquimia, que junta duas pessoas de dois mundos diferentes para criar um terceiro. Seu pai e sua mãe fizeram a dois esse lugar em que você vive, assim como seus avós fizeram para mim. 
Desde que você e seu primo nasceram, deixei de ser só, virei igual. Tão grande e tão pequena quanto qualquer um. Estou melhor para seguir em frente, levo tão mais comigo. Olho pra frente: sonhos me esperam. Pessoas, surpresas, conquistas, bênçãos. Olho pra frente: você.

Não acordo nem vou dormir lamentando a falta da sua avó. Esbarro nela de vez em quando. Eu vivo, ela falta. Eu vivo, ela falta. Vejo isso em você. Mas talvez para você não falte nada. 

Algumas vezes não a vejo em você, aí não dói, pois não me lembro. Em outras tantas, você me volta um olhar conhecido, com um jeito conhecido – novo por ser seu, mas, ainda assim, dela. Nessas horas, pontadas. Depois passa. Meus olhos para você são de futuro, minha pequena.

Não sei o que é a morte ou o que existe por trás dela. Sei o que fica. Sei que a ordem das coisas foi abençoada. Sei que você já nasceu ganhando, sorrindo, descobrindo.
Mas ela perdeu, princesinha. Isso não muda. E foi por tão pouco. Um triz. Talvez um único segundo.
Um segundo e o que era futuro virou passado, sem ter sido presente. Um segundo e os planos se rearranjaram na pressa, a medida do sonho passou a ser a do possível. Um segundo e a resposta era outra. O passado virou mentira, desapareceu, passou a ocupar o lugar do sonho.
Mas se aquele dia tivesse tido apenas 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Não houvesse aquele tal segundo e talvez passássemos juntas cada fim de semana, ela a preparar mamadeira, a cantar para você enquanto dança pela sala, nós quatro - você, seu primo, eu e ela - a passear pelo supermercado exibindo suas travessuras e discutindo por causa da marca do molho de tomate. Não houvesse esse segundo e eu sofreria menos ao ver um pôr do sol... Sua avó se foi numa tardezinha qualquer, que ficou eternizada pelo lindo pôr do sol que se exibia naquele instante de dor.

Por um segundo, na verdade, não foi a sua avó: foi o sonho que morreu para ela. Conhecer você, ver seu rosto, pegar você no colo e exibir: "minha neta". Um sonho tão certo. Coisas lindas que a mim não foram negadas. Um segundo e somos só nós duas. E um mundo.

Diante do que fluía como um creme, a vida endureceu. Não ficou triste, trágica, dramática. Tornou-se difícil. Como tantos outros, como todos, estou diante da complexidade. Mas não a admito. Quero, corro, rio, penso, crio para que pareça fácil. Não é possível, no meu momento mais bonito não cabe o difícil, só cabe o que flui. Como creme, dança, como cena em slow motion.

Um segundo, muitos e muitos outros. A vida deu voltas à minha volta e não sossegou enquanto não comecei a escrever. Um segundo e estou eu aqui a falar. Com você e com um mundo. E, um dia, você vai crescer e ter maturidade e sensibilidade o suficiente para ler tudo isso e ter só uma certeza: sua avó sempre te amou.

Um beijo bom, My Little Girl

Titia

Do alto da minha ignorância

Tenho sentido ela distante, indo embora de mim. Resisto a tentação de pedir que ela fique. Não devo, não devo. É hora de ir e deixar em mim o que precisa ficar. Como eu previa, as lembranças já não são frescas, mas, mesmo distante da intensidade, sei muito à respeito dela. Nesse tempo todo de falta, procurei o costume como saída, fiz da ausência um hábito, até que ela virasse paisagem. Só que, de vez em quando, entra um vento de dor por uma fresta insuspeita, atingindo minha pele com um frio de tristeza. Talvez eu sinta para sempre esses arrepios, como quem tem uma doença crônica, um reumatismo de amor que, vez por outra, finca e maltrata. Depois passa. E volta - não há como virar uma página que insiste em se reescrever. E hoje, em meio a dores e cores, lágrimas e sorrisos, percebo algo de bom... Não foi nenhum livro que eu li, não foi nenhum filme que eu vi, foi o que me foi dado a viver e o caminho, o único, o que encontrei para respirar. Foi a minha ignorância. Minha não pretensão, o meu não julgamento e uma lente de amor a distorcer (ou revelar?) a poesia. Antes de ser dúvida, já era texto, já era lido, já era. Arte por ser expressão legítima do que o coração gritava. E assim, inteira, absolvida pela ignorância, cometi a simplicidade de dizer o que sentia. Fiz, sem saber que a sinceridade era um atrevimento. E acho que vai ser sempre assim. Hoje, escrevo.

Indicando

Estava organizando uns papéis meus, e descobri umas antigas anotações que eu achava que estavam perdidas. Eram umas frases copiadas de livros que li, não de todos, mas os que eu julgava dignos de serem lembrados, e fui imediatamente colocá-las no meu caderninho de frases. Sim, eu tenho um, comecei a copiar coisas de livros e filmes que achava interessante aos 14 anos, mas passei um bom tempo sem fazê-lo, e  há uns anos tenho retomado o hábito.

Quando fui passar as frases das folhas antigas para o caderno, tornei a lê-lo e revi anotações minhas de um livro maravilhoso, e como algumas vezes eu me dou o direito de dar dicas de livros por aqui, hoje vou indicar mais um: Fahrenheit 451 por Ray Bradbury.
Talvez muitos já tenham visto o filme, de mesmo nome, do Truffaut (eu não vi ainda, toda vez eu pego pra ver, mas nunca assisto!).
Não sou muito de ler ficção científica, mas desde que li Admirável Mundo Novo (se é que se pode resumir esse livro a um gênero), que leio livros parecidos, como 1984 (George Orwell), Não verás país nenhum (Ignácio Loyola de Brandão), Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 foi escrito em 1953 e descreve um governo totalitário, num futuro incerto mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura. Tudo é controlado e as pessoas só tem conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instaladas em suas casas ou em praças ao ar livre. Os bombeiros tem como atividade queimar os livros que são encontrados. Até que um dia, um dos bombeiros, Montag, conhece uma menina e começa a questionar sua profissão e a sociedade. E o resto… é melhor você ler!
E só pra aguçar a curiosidade dá uma lidinha nesses trechos que eu coloco logo abaixo (são os que estão no meu caderninho).

Ah, e como pode ser ruim um livro que fala sobre livros? E o melhor é que a única edição brasileira vendida atualmente é uma versão de bolso, ou seja, baratinha, baratinha.  ;)







‘Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem que haver alguma coisa. Ninguém se mata a troco de nada’

‘Deixar você em paz! Tudo bem, mas como eu posso ficar em paz? Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?’

‘Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminu, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?’

‘Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas’

‘Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? Será porque somos tão ricos e o resto do mundo tão pobre e simplesmente não damos a mínima para sua pobreza? Tenho ouvido rumores; o mundo está passando fome, mas nós estamos bem alimentados. Será verdade que o mundo trabalha duro enquanto nós brincamos? Será por isso que somos tão odiados?’

‘Eu não falo de coisas, senhor. Falo do sentido das coisas. Sento-me aqui e sei que estou vivo’

‘Os livros servem para nos lembrar quanto somos estúpidos e tolos. São o guarda pretoriano de César, cochichando enquanto o desfile ruge pela avenida: – Lembre-se, César, tu és mortal. A maioria de nós não pode sair correndo por aí, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo, não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro’

‘Se você esconder sua ignorância, ninguém lhe baterá e você nunca irá aprender’

‘Tudo está bem quando tudo acaba bem’


Tão antigo e tão atual... INDICO!

Casar ou Estudar?

Esses dias li um artigo super interessante no NY Times, discutindo os resultados de várias pesquisas recentes, indicando que, quanto mais capital humano uma mulher tem (capital humano é medido através de formação acadêmica e renda salarial), maiores as chances de ela não apenas casar, mas também ter um casamento duradouro. Essa estatística é baseada em dados americanos e ingleses, mas já é um bom começo.

Achei o artigo bem interessante, pois muitas pessoas ainda acham que existe um lado negativo entre buscar uma educação superior e ter um relacionamento, e acabam abrindo mão de metas acadêmicas e profissionais para satisfazerem o parceiro, o que é uma verdadeira pena. De acordo com as pesquisas, mulheres que têm diploma de faculdade tem uma probabilidade maior do que as que possuem 2º grau de estarem em um relacionamento estável. Adicionalmente, a porcentagem de mulheres com grau universitário que ainda estão casadas após os 40 anos de idade é maior do que as que possuem apenas o 2º grau. 
Não acho que todo mundo TENHA que casar, tá? Acredito que dá para ser feliz sozinho e admiro bastante pessoas que preferem não casar, mas acho importante acabarmos com esse estigma negativo que "mulher com sucesso acadêmico/profissional fica pra titia."
 
Um dos pontos relevantes que o artigo apresenta é a divisão do trabalho doméstico, que, de acordo com as pesquisas, é um dos dois maiores indicadores da satisfação feminina no casamento. Quanto mais alta for a formação acadêmica da mulher em relação ao seu marido, mais egalitária é a divisão do trabalho doméstico. E isso eu acho um ponto super relevante: muitos homens (especialmente no Brasil, infelizmente) ainda tem a impressão que o trabalho doméstico é exclusivamente um âmbito feminino. Nossa, eles não poderiam estar mais enganados... porque pesquisas também indicam que mulheres se sentem muito mais atraídas sexualmente por homens que ajudam no lar (e pelo menos no meu caso, posso garantir que isso é verdade). 

Se isso não for motivo suficiente para acabarmos com o estigma de que existe uma escolha entre nossa própria educação e um relacionamento amoroso feliz, ainda apresento os resultados das pesquisas de Pepper Schwartz  e Virginia Rutter, da Universidade de Washington concluindo que mulheres que têm diploma universitário demonstram interesse maior por sexo, assim como maior interesse em experimentar posições sexuais diferentes e têm orgasmos mais frequentemente.

Infelizmente, ainda existe muitos homens que se sentem emocionalmente inferiores quando suas mulheres conquistam mais academicamente e profissionalmente. As pesquisas concluem que, em geral, esses homens se identificam mais como provedores no relacionamento, e não parceiros, e essa característica é correlacionada a infelicidade no casamento. Para esses pobres coitados, deixo apenas uma frase do próprio NY Times, "Poucas mulheres realmente querem se casar com um homem cujo pênis sobe e desce em conjunto com o tamanho de seu salário ou o prestígio do seu diploma."

Enviando Cartas...

Princesinha,
 
Queria estar presente no seu primeiro dia de aula, só para te ver dando esse passo tão importante. Você e seu primo estão crescendo muito rápido, e isso assusta...
 
Titia comprou sua primeira mochila, e sua primeira lancheirinha. São lindas! Comprei também um monte de enfeites para mamãe colocar em seus cabelinhos, você vai ser a garota mas linda da escola! Vou ficar aqui, com Vovô, imaginando Papai indo te deixar na aula, e Mamãe preparando os melhores lanches para você comer na hora do recreio, e os nossos corações vão se encher de saudades.
 
Você e seu primo são os pedacinhos de gente mais amados do mundo!
Espero que um dia você possa ler isto, e compreender, mas principalmente sentir, a qantidade de amor que está depositado nestas palavras, enquanto você não sabe, peça para Mamãe ou Papai ler para você.
 
Te amo muito, my little girl!
 
Um Beijo Bom
Titia

Trecho de Quinta # 36

"…Eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
 
 
A Mão e a Luva - Machado de Assis

Sem saída

É assim todo dia. Toda vez que ouço a sirene de uma ambulância, lembro de ouvir uma sirene que eu sabia ser em vão. De uma última esperança que não pensa, não raciocina, só faz correr para salvar. Lembro dessa burrice bonita que é feita a última esperança. Lembro de um buraco na porta, de uma porta que era só uma das coisas que, naquele momento, me separavam dela. Eu me lembro de lembrar do medo, e então tudo perder o sentido. De uma vontade de estar errada, mesmo cercada por muita verdade. Diante de mim, o silêncio e a não explicação. Atrás de mim, uma despedida que não foi. Acima de minha cabeça, um céu cinzento de realidade. Eu me lembro da dor de pensar que nunca mais haveria resposta. Eu me lembro de imaginar a suavidade violenta que deve ter sido aquele segundo entre o estar e o não estar mais. Eu me lembro da esperança de ainda conferir, como se a qualquer momento a vida pudesse mudar de ideia, como se alguém estivesse prestes a desfazer aquela brincadeira de mau gosto. Eu me lembro de não entender. Entre ela e eu, a vida. A morte. O amor. A saudade.

E como falo

Não falo de um amor perfeito, falo de um amor real. E essa talvez seja uma de suas grandes qualidades. Falo de um encontro, de um acreditar. Não falo de planos, prestação de apartamento, lote para construir, projeto do quarto do bebê. Não falo de planejar a próxima viagem de férias. Falo de uma sinceridade, de um estar inteiro, a cada momento em que se decidia estar. Falo de um sorver a vida como se bebe vinho ou café quentinho. Falo de muitos sins e também dos nãos. Nãos que também eram de amor. Falo de uma certeza que tinha curto prazo de validade, mas renovável a cada dia. Falo de cada novo dia em que era bom não ter a certeza, para de novo merecer o desejo. Falo de um desejo que nascia a cada sol. Falo de uma construção. Falo de amor porque antes falo de amizade. Falo de corações puros, no sentido menos ingênuo da palavra. Falo, não porque ele não está mais aqui. Falo de mim, falo dele, falo de nós. Falo de você.

# Tira de Segunda


Nunca confie numa segunda, nem nas mais bonitinhas.

Made in Mentirinhas.

Trecho de Quinta # 35

E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário: por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.
 
 
Dom Casmurro - Machado de Assis

Melancolia me deixa em paz!

Hoje acordei melancólica, pensativa...
Não me dou muito bem com essas comemorações de fim de ano, há alguns anos tudo isso perdeu o sentido para mim... Sempre fico com a sensação de que está faltando algo (acho que dia 31 a situação piora...)

Geralmente as pessoas fazem um balanço de tudo o que aconteceu em suas vidas durante o ano corrido, eu não. Sempre olho o que deixou de acontecer, para que no próximo ano eu tente realizar... Mas as vezes dói quando você percebe que algumas coisas, simplesmente, não vão mais se concretizar, que o tempo delas chegou ao fim. As coisas mudam, você muda, tudo muda!

Dentre essas mudanças fico me perguntando o que restou de mim, quem eu ainda sou, e o que posso fazer com o resto de mim que ainda vive nesse corpo...

Vasculhei aqui a minha pasta de textos aleatórios e achei que este, talvez , fosse o mais indicado para a ocasião... Acredito que quando não conseguimos traduzir nossos pensamentos em palavras, podemos, quase sempre, nos encontrar nas de outra pessoa.
Este é um texto de Clarice Lispector, e me encontro tão verdadeiramente nessas palavras, que as vezes acho que eu mesma escrevi. E como costumo dizer: ele é um reflexo do meu espelho...





"Já escondi um amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!!!"


(Clarice Lispector)


Ho Ho Ho Ho...


 
Feliz Natal!

Ele sabe que errou

Para quem não sabe, o Hugo, cachorrinho mais fofo desse mundo, é um Poodle que ganhei de presente de aniversário há quatro anos atrás (logo, Hugo tem quatro anos, já que ganhei quando ele ainda era um filhotinho).
 
Apesar dessa fofura toda e do tratamento de lord (afinal, Hugo come comidinha especial, é paparicado pelo clã Maciel, e até frequentava salão de beleza para cachorro), meu cachorrinho, as vezes, se comporta pior que um vira lata.
 
Hoje, quando cheguei do trabalho, me deparei com a seguinte cena:

Esses negócios brancos são, na verdade, o algodão que sempre deixo junto ao meu estojo de maquiagem, que meu cachorrinho lindinho conseguiu abrir a caixa e espalhar em mil pedacinhos por todo meu quarto...


Ainda bem que tive um momento iluminado e consegui manter a calma (o que é bem difícil na TPM!), primeiro por que fiquei imaginando o estrago que ele teria causado se tivesse atacado meu estojo de maquiagem ao invés da caixinha de algodão, e segundo  por que a culpa foi um pouco minha já que não deixei a porta do meu quarto fechada (e também por que cama não é porta-maquiagem!).
 
A pior parte é que ele sabe que fez M****, pois assim que cheguei em casa, e vi a traquinagem, olha só onde ele se enfiou:
 
Sim, ele, com a maior cara de culpa do mundo, se enfiou embaixo da cama! Bom esconderijo, não?
 
Depois de limpar toda a M**** que ele fez, lavar seu rosto e suas patinhas, ainda fiquei preocupadíssima convencida que meu cachorrinho teria um piripaque! (porque nessas horas é impossível não jogar no Google "meu cachorro comeu lixo"  e ficar pensando em todas as tragédias que poderiam acontecer) Ainda bem que ele não teve nada, nem sequer vomitou! (estômago de avestruz!)
Mesmo depois da peripércia (e da minha neurose ter passado), levei o culpado para passear...
 
 
 
... porque não há quem resista à essa carinha:
 
 

O que eu também não entendo...

Com a tragédia de sexta-feira, o clima nos USA anda meio sombrio... se não me engane este é o quarto massacre nos USA este ano, e honestamente, é o que mais me assustou. Fiquei pensando em como deve ser desesperador para os pais que perderam seus filhos, tentando me colocar no lugar deles (impossível, eu sei...) Como é que você faz para deixar seu filho no colégio no dia seguinte? Como é que você educa seu filho para lidar com esse tipo de situação? E como é que você explica para uma criança de 5 anos que esse tipo de tragédia aconteceu? Eu, com meus vinte e poucos, não consigo entender... (e devo dizer que mesmo que tivesse 90, acho que, ainda assim, não saberia explicar...)
Na época de Columbine, ainda era uma criança. Esse massacre, para mim, foi coisa de filme, algo completamente surreal... Acho que nem cheguei a me colocar no lugar daqueles adolescentes, afinal, na minha bolhinha brasileira/infantil, isso jamais aconteceria! (assaltos a mão armada e etc faziam parte da minha realidade, mas NUNCA me senti ameaçada em um ambiente acadêmico). Pode até ter sido privilégio meu nunca ter tido essa sensação de insegurança, mas honestamente, será que toda criança não tem o direito de se sentir 100% segura no colégio? (e nós, como uma sociedade, não temos o dever de garantir esta insegurança?!).
Infelizmente, lendo e ouvindo sobre massacres a mão armada, praticamente anualmente, confesso que meu nível de segurança baixou... Engraçado que não tenho medo de andar sozinha a noite, nem de sair de casa com anel de ouro nos dedos, nem de carregar aparelhos eletrônicos por aí... isso faço sem nem pensar! Tenho medo é da insanidade de alguns poucos, que, junto com a facilidade de obter armas, dá margem para a tragédia que ocorreu sexta, principalmente num lugar que a venda dessas armas é legal.
 
 

 
Realmente torço para que, pelo menos dessa vez, o diálogo em relação ao controle do comércio e posse de armas nos USA ganhe força e apoio da população, que o loby criado pelo NRA (National Rifle Association) tome vergonha na cara e pare com essa babaquice de "Armas não matam pessoas. Pessoas com armas é que matam pessoas." Realmente, arma nenhuma dispara sozinha, por vontade própria, sempre tem alguém no gatilho. Mas dado que não dá para se desfazer de "pessoas com armas", e dá para se desfazer do "armas", que tal reavaliarmos a posse de armas?!
Acho um ABSURDO quando alguém vem com esse papo de que "posse de armas é um direito do cidadão, garantido pela Constituição" e não se muda a Constituição (por esse raciocínio, mulheres nunca teriam direito ao voto, escravidão ainda existia, imposto federal seria inexistente, e ah, é verdade, a posse de armas também não seria um direito, afinal, a posse foi uma EMENDA!).
E realmente, em 1791, fazia todo sentido do mundo ter esse direito para proteger sua terra/propriedade, e a segunda emenda funcionava dentro daquele contexto. Mas nos dias de hoje, o contexto é BEM diferente... e NINGUÉM precisa ter um rifle semi-automático em casa para se sentir seguro.
Enfim, eu ainda poderia falar muito sobre este assunto, já que eu realmente não consigo aceitar esse aspecto louco da sociedade americana, e muito menos entendê-lo, mas preciso voltar ao trabalho.

 

# Tira de Segunda



Made in Meus Nervos!

# Música da vez

Quem de Nós Dois - Ana Carolina
 
 
Eu e você
Não é assim tão complicado
Não é difícil perceber
Quem de nós dois
Vai dizer que é impossível
O amor acontecer
Se eu disser
Que já nem sinto nada
Que a estrada sem você
É mais segura
Eu sei você vai rir da minha cara
Eu já conheço o teu sorriso
Leio o teu olhar
Teu sorriso é só disfarce
O que eu já nem preciso
Sinto dizer que amo mesmo
Tá ruim pra disfarçar
Entre nós dois
Não cabe mais nenhum segredo
Além do que já combinamos
No vão das coisas que a gente disse
Não cabe mais sermos somente amigos
E quando eu falo que eu já nem quero
A frase fica pelo avesso
Meio na contra mão
E quando finjo que esqueço
Eu não esqueci nada
E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais
E é por isso que atravesso o teu futuro
E faço das lembranças um lugar seguro
Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida
Eu procurei qualquer desculpa pra não te encarar
Pra não dizer de novo e sempre a mesma coisa
Falar só por falar
Que eu já não tô nem aí pra essa conversa
Que a história de nós dois não me interessa
Se eu tento esconder meias verdades
Você conhece o meu sorriso
Lê o meu olhar
Meu sorriso é só disfarce
O que eu já nem preciso
E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais
E é por isso que atravesso o teu futuro
E faço das lembranças um lugar seguro
Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida