# pequenos momentos de felicidade

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Hoje acordei depois de dias cansativos, e como sempre me pus a andar descalça pela casa. Eu tomei o café e fui ouvir o Jack Johnson que dancei ontem à noite, agarrada a minha insônia e ao meu chá gelado de limão – não conseguia dormir, não mesmo. Enquanto eu arrastava os poucos móveis de casa tentando recolher as bolinhas da piscina que improvisei para Hugo brincar, a música me falava sobre mim e sobre essa minha história que não para. Desprezando o cansaço, o movimento do meu corpo era disposto e livre. Eu cantava de alegria e saudade, uma saudade ensolarada. Senti um sorriso no corpo e pensei sobre as manhãs. Não por acaso a vida é assim, acordar e acreditar que tudo vai ser novo e melhor, sentir que já está sendo bom, não importa se exatamente do jeito que a gente sonhou. Hoje eu sou a minha manhã fresca de sol.


Alienação


As verdades do Will.

Trecho de Quinta # 37



"As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas para mim está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e gradações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas."

A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak)

Presentes

E quando você acha que o dia está perdido, vem uma surpresa boa e te resgata com palavras despretensiosas que, inevitavelmente, te arracam um sorriso bobo e um olhar mais bobo ainda.


Tea & Coffee



Já começou os trabalhos com o vinho, ela pergunta. Ainda não, respondo lamentando. Ando vergonhosamente sem grana, engolindo a seco aquela pindaíba de fim de mês, assediando em vão os bolsos em praça pública, e o supermercado onde compro fiado está fechado. Sendo assim, já viu: pra fingir que estou bebendo algo tão charmoso e simbólico quanto o néctar de Baco, talvez eu faça chá. Nunca fiz chá na minha vida, sou especialista mesmo é em café, o antídoto do cotidiano. Mas hoje não é dia de cotidiano, hoje é feriado nacional, dia de Maria, dia em que todas as bodegas da cidade estão fechadas, dia de ouvir blues, e blues, convenhamos, é uma liturgia que pede whisky, vinho ou, na falta destes, algo que lhes faça frente, como um bom chá, por exemplo, cuja erva ainda não escolhi.



Está sozinho? Praticamente. Quer dizer, depende. Tem um Saramago logo aqui em baixo implorando pela minha atenção e uma leva de gatos no quintal, uma gangue de ladrões de moela de frango, minha parte preferida no ensopado. Se vacilar por um mísero instante com o portão da cozinha aberto, destampam as panelas que ficam sobre o fogão após o almoço com tamanha desenvoltura como se tivessem longos polegares e dedos indicadores... Um deles é nascido há pouco, ainda está mamando, mas já percebi que é o mais astuto do bando, um pilantrinha de marca maior. Sei que você gosta mais de cães do que de gatos - assim como se rivalizam entre nós os Beatles e os Rolling Stones - mas, convenhamos, os cães têm apenas uma vantagem perante os felinos: a fidelidade. Por fidelidade ao seu dono, um solitário e desamparado pinscher é capaz de enfrentar uma alcateia de pit bulls famintos. Já vi vira-lata salvar criança da boca de hot vailer.



Mas como eu disse, nunca fiz chá nessa vida, não tenho chá pré-pronto aqui em casa, tipo aqueles que se compra no supermercado em saquinhos que se penduram na borda da xícara com água quente. O que tenho aqui são algumas poucas ervas - entre as quais não sei sequer distinguir as espécies - e casca de laranja seca. Sabia que se faz um delicioso chá com casca de laranja seca? Minha mãe sempre fazia quando eu era criança. Pendurava as cascas no varal ou na cerca de madeira e lá, por dois ou três dias sob o sol metalúrgico do verão, elas ressecavam. Nunca me explicaram o porquê desse procedimento. Por outro lado nunca quis eu saber, e ainda hoje não o quero: há rituais de família que não se deve explicar. O mundo perdeu certa graça quando passaram a pesquisar e problematizar os mistérios, os ritos, os mitos. Hoje em dia, como aos poucos se tem morrido toda tradição, coisa rara é ver casca de laranja seca aqui em casa. O que impera em nossa cozinha é o tal do boldo, folhas de boldo, chá de boldo, dieta da minha mãe à base de boldo, a pretexto de sérios problemas intestinais. Mas penso eu que nem boldo, muito menos casca de laranja seca combinam com blues, embora eu saiba que a mais profunda origem do blues está em regiões bucólicas da África e, após a migração dos escravos, em regiões bucólicas do Mississippi, onde suponho que boldo e laranja abundavam.
 
Mas, como eu já disse e desdisse, nunca fiz chá, e tenho enfatizado essa minha deficiência alquimista para que perceba que preciso de você aqui, percorrendo descalça os vãos quase nus desta casa, preciso que me ensine a fazer chá, e só assim poderei me realimentar das migalhas da tua voz, como uma rêmora mendigando os restos de comida do tubarão, e quem sabe te ensino a fazer café, meu aclamado café que merece ser degustado nas manhãs pardas e pacíficas de todo o mundo, do Nepal a Tijuana, da África ao Mississipi. Desconfio que entre as ervas que guardo na dispensa deve haver alguns galhotes de camomila, esta sim, convenhamos, desce com mais melindre pelo paladar adentro e soa mais charmosa pela língua afora. E então, dado nosso acordo, você me ensinaria a fazer chá e eu te mostraria o segredo do meu café, fetiche das mulheres que já dormiram comigo, quase uma porção mágica afrodisíaca. Mas não precisa você dormir comigo se não quiser. Por hoje não poderei te pagar um táxi. Quero apenas que me ensine a fazer chá. Que fique aqui por algum tempo me ensinando a fazer chá. E isso me basta, por enquanto.


De Luis Fernando Mifô para mim.

Hugo: A Saga

Eu só fui entender (e acreditar) no ditado que diz "O cachorro é o melhor amigo do homem" quando eu ganhei Hugo. Não, Hugo não foi o primeiro cachorro que tivemos lá em casa, já tivemos Billy, um dálmata lindo. Mas eu, pequena como era sou, meu pai tinha medo de deixar Billy chegar perto de mim pois ele me derrubava no meio da sua felicidade canina (Billy era grandão!). Portanto, eu não tive tanto contato com Billy.

E mais, Hugo é meu, foi dado à mim!  Hugo cabia na palma da minha mão quando o vi pela primeira vez, e foi lá para minha casa ainda filhotinho, com um mês de vida. É tão fofo e amável que conseguiu conquistar o coração turrão do meu pai (tanto é que Hugo, ultimamente, deu para dormir perto do velho). Acompanhei todo seu crescimento, suas travessuras e afins. Hugo faz parte da família, e o amor que sinto por ele é gratuito, e o melhor: é RECÍPROCO! 

Amo a festa que ele faz  toda vez que chego em casa, acho lindo quando ele fica do meu lado quando estou doente (a última vez ele passou o dia e a noite inteira deitado do meu lado, não saiu nem quando painho chamou pra ele comer), amo quando ele vem todo despretencioso à procura de carinho... Enfim: AMO! 

Mas, vez por outra, esse amor chega a ser engraçado. Vida de estudante sabe como é, o dinheiro só dá para xerox e a madrugada só dá para estudar.  Hugo inventou de me acompanhar numa madrugada dessas, e olhem só no que deu:



Decidido a me acompanhar!
Mamãe, posso estudar com você?
Firme e forte!















Mas aí, lá pelas tantas, Morpheu decidiu cobrir Hugo com seu manto...

  Hugo não resistiu e se deitou...

Com o olhar já distante...

... O sono chegou!
 Mas ele, embora dormindo, só foi dormir no seu cantinho (leia-se  debaixo da cama do meu pai) quando eu parei de estudar e fui dormir também.

Tem como não amar?

Um Segundo

Quando você deita a sua cabecinha no meu ombro como se eu fosse a sua casa, reconheço a sensação. O abraço que você busca em mim, eu buscava na sua avó. Eu era você no ombro dela. Acho que família é feita dessa alquimia, que junta duas pessoas de dois mundos diferentes para criar um terceiro. Seu pai e sua mãe fizeram a dois esse lugar em que você vive, assim como seus avós fizeram para mim. 
Desde que você e seu primo nasceram, deixei de ser só, virei igual. Tão grande e tão pequena quanto qualquer um. Estou melhor para seguir em frente, levo tão mais comigo. Olho pra frente: sonhos me esperam. Pessoas, surpresas, conquistas, bênçãos. Olho pra frente: você.

Não acordo nem vou dormir lamentando a falta da sua avó. Esbarro nela de vez em quando. Eu vivo, ela falta. Eu vivo, ela falta. Vejo isso em você. Mas talvez para você não falte nada. 

Algumas vezes não a vejo em você, aí não dói, pois não me lembro. Em outras tantas, você me volta um olhar conhecido, com um jeito conhecido – novo por ser seu, mas, ainda assim, dela. Nessas horas, pontadas. Depois passa. Meus olhos para você são de futuro, minha pequena.

Não sei o que é a morte ou o que existe por trás dela. Sei o que fica. Sei que a ordem das coisas foi abençoada. Sei que você já nasceu ganhando, sorrindo, descobrindo.
Mas ela perdeu, princesinha. Isso não muda. E foi por tão pouco. Um triz. Talvez um único segundo.
Um segundo e o que era futuro virou passado, sem ter sido presente. Um segundo e os planos se rearranjaram na pressa, a medida do sonho passou a ser a do possível. Um segundo e a resposta era outra. O passado virou mentira, desapareceu, passou a ocupar o lugar do sonho.
Mas se aquele dia tivesse tido apenas 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Não houvesse aquele tal segundo e talvez passássemos juntas cada fim de semana, ela a preparar mamadeira, a cantar para você enquanto dança pela sala, nós quatro - você, seu primo, eu e ela - a passear pelo supermercado exibindo suas travessuras e discutindo por causa da marca do molho de tomate. Não houvesse esse segundo e eu sofreria menos ao ver um pôr do sol... Sua avó se foi numa tardezinha qualquer, que ficou eternizada pelo lindo pôr do sol que se exibia naquele instante de dor.

Por um segundo, na verdade, não foi a sua avó: foi o sonho que morreu para ela. Conhecer você, ver seu rosto, pegar você no colo e exibir: "minha neta". Um sonho tão certo. Coisas lindas que a mim não foram negadas. Um segundo e somos só nós duas. E um mundo.

Diante do que fluía como um creme, a vida endureceu. Não ficou triste, trágica, dramática. Tornou-se difícil. Como tantos outros, como todos, estou diante da complexidade. Mas não a admito. Quero, corro, rio, penso, crio para que pareça fácil. Não é possível, no meu momento mais bonito não cabe o difícil, só cabe o que flui. Como creme, dança, como cena em slow motion.

Um segundo, muitos e muitos outros. A vida deu voltas à minha volta e não sossegou enquanto não comecei a escrever. Um segundo e estou eu aqui a falar. Com você e com um mundo. E, um dia, você vai crescer e ter maturidade e sensibilidade o suficiente para ler tudo isso e ter só uma certeza: sua avó sempre te amou.

Um beijo bom, My Little Girl

Titia

Do alto da minha ignorância

Tenho sentido ela distante, indo embora de mim. Resisto a tentação de pedir que ela fique. Não devo, não devo. É hora de ir e deixar em mim o que precisa ficar. Como eu previa, as lembranças já não são frescas, mas, mesmo distante da intensidade, sei muito à respeito dela. Nesse tempo todo de falta, procurei o costume como saída, fiz da ausência um hábito, até que ela virasse paisagem. Só que, de vez em quando, entra um vento de dor por uma fresta insuspeita, atingindo minha pele com um frio de tristeza. Talvez eu sinta para sempre esses arrepios, como quem tem uma doença crônica, um reumatismo de amor que, vez por outra, finca e maltrata. Depois passa. E volta - não há como virar uma página que insiste em se reescrever. E hoje, em meio a dores e cores, lágrimas e sorrisos, percebo algo de bom... Não foi nenhum livro que eu li, não foi nenhum filme que eu vi, foi o que me foi dado a viver e o caminho, o único, o que encontrei para respirar. Foi a minha ignorância. Minha não pretensão, o meu não julgamento e uma lente de amor a distorcer (ou revelar?) a poesia. Antes de ser dúvida, já era texto, já era lido, já era. Arte por ser expressão legítima do que o coração gritava. E assim, inteira, absolvida pela ignorância, cometi a simplicidade de dizer o que sentia. Fiz, sem saber que a sinceridade era um atrevimento. E acho que vai ser sempre assim. Hoje, escrevo.