Quando a morte acontece, até que a gente se acostume, ela se repete muitas e seguidas vezes. Ao acordar no dia seguinte, está lá a morte novamente. A cada lembrança, outra morte. E a morte de novo, de novo, de novo e mais uma vez. Até que em nós ela morra de fato — e isso demora. Algumas vezes ela vem mais forte, mais avassaladora, e te dá uma rasteira doce e certeira.
Para mim, a morte se renova a cada Natal, a cada 19 de agosto e 22 de outubro, a cada reunião de família e a cada dia das mães.
Minha mãe sempre gostou de rosas vermelhas, e eu herdei esse gosto dela assim como outras tantas coisas. Fui visitá-la e parabenizá-la pelo seu dia, e, como boa filha, levei as rosas que ela tanto gosta. Não dei e nem recebi abraços, beijos e nenhum olhar carinhoso. Coloquei as flores sobre um gélido mármore, olhei para uma foto borrada pelo tempo, e disse aos prantos: Feliz Dia das Mães.
"Mas eu acredito em finais felizes. Mesmo que
o sol não brilhe na manhã, eu também sei que uma hora ele sorrirá para mais um
dia clarear. Sei que um amor, por mais triste que sejas, no final, restará uma
grande saudade. Não pelo o que ele é, mas pelo o que ele foi."
Que de meus irmãos vi trechos de filmes,
livros, discos, secos, molhados, laranjas, mecânicas, corpos que falam,
escondida atrás da poltrona. Que de minhas primas assisti amores, sandálias de
tiras, secadores barulhentos, espelhos indecisos, portões e eu te amos. De meus
pais ouvi vozes sem brilho, silêncios velados, o som alto da TV e uma resignada
ordem das coisas - mas no meio disso tudo eu vi amor. Quero lhe dizer que de
mim mesma vi muito e tanto, sem saber o que fazer com. Que de mim mesma escrevi
tentando ler. Que do tempo entendi sermos feitos de medos iguais. Que dos fins,
vi começos. Que, das férias, vi ilusões. De cortinas que se fechavam, vi se
abrirem outras. Que os medos que tenho hoje não são outros dos que me viram crescer.
Que os meus vinte e poucos eu não sinto. Que você crescendo ao meu lado é
exemplo. Quero lhe dizer que não sei. Que ao ter você em meus braços, sinto
como se soubesse, e esqueço os meus temores para ser o seu farol. Que ser o seu
farol, acende um caminho dentro de mim. Quero lhe dizer que ao tentar ensinar
aprendo de novo – ou quem sabe é a primeira vez. Quero lhe dizer o que quero me
dizer. Que você é um amor em mim. É afeto melhorado. Que depois de você a vida
é brincadeira leve. Que o perigo de te ver crescer é um risco doce. Que a sua
respiração me faz voar para bem longe. Que a minha respiração ofegante coloca
vírgulas em mim. Que atropelo as vírgulas em busca dos começos que moram depois
dos pontos finais. Quero lhe dizer obrigada pelas vírgulas. Porque ao lhe
ensinar sobre elas, vou aprender.
Durante alguns dias em que estivemos
separados, minha melhor companhia foi um disco da Cat Power, presente de um
amigo que, carinhosamente, desenhou um coração partido na face do cd. Esta
música faz parte da categoria das “músicas silenciosas”. Ouço bem alto e ainda
sobra espaço para sentir. É música que fala de falta – e por isso mesmo fala de
encontro. De uma presença que era o que eu estava tentando encontrar naquela
época: a minha própria. Chegar mais perto de mim naqueles dias talvez tenha
ajudado a trazê-lo, dias depois. Eu me reencontrava com o mundo, mas não ia só
– pela primeira vez na vida, eu me sentia em minha própria companhia. Depois de
um tempo, de fato, não estava mais sozinha: me descobri dentro de mim. E então
aquela força e aquela alegria que eu sentia sem saber por que, ganharam
explicação.
Já uma música do M. Ward, também
silenciosa, foi minha companhia numa outra transição. Entre a perda da minha
mãe e a chegada de um mundo novo, eu sentia uma mistura que eu não sabia
explicar – nem sei se sabia sentir. Essa música me ajudou a chegar no lugar.
Minha tristeza se assentou, talvez por finalmente ter se mostrado. E era uma
tristeza doce. Uma tristeza em paz. Ouvir essa música me fazia pensar e
principalmente sentir tudo isso: a ida dela, sobreposta a uma vida nova, a
minha vida. Na confusão absurda daquele momento, essa música parecia me contar
a minha própria história.
Tenho lembranças dela no dia de sua partida, principalmente quando tive que ir
ao cartório resolver a papelada da certidão de óbito. Um papel, um único papel
que atestava a certeza que meu coração insistia em não acreditar. Sentei numa
cadeira e coloquei os fones de ouvido, um momento em que me pus a pensar no que
fazer naquele dia em que o mundo inteiro trabalhava, e eu tinha parado para
esperar o pedaço de folha mais pesado que já se ouviu falar. Naquele dia, sim,
senti solidão. Porque a vida das pessoas tinha que continuar, e eu estava
diante de um divisor de águas. Nunca mais voltaria a ser a mesma. Minha mãe já
não estava ao meu lado para presenciar essa mudança – nem para mudar comigo. Quanta
ironia: ela causou a mudança.
Fazia um mês que eu só ouvia esse disco , desde que Miguel o levou para mim de
presente. Ele não sabe que foi essa seleção de músicas que me levou para outro
lugar. As próprias músicas acabaram se tornando um lugar, que eu visito de vez
em quando, para entender de novo o que senti. Para entender, sentindo de novo.
Até hoje, ao ouvir essa música, tenho uma vontade de chorar que não é de
tristeza, é de beleza. É disso que ela fala, é disso que fala a minha história,
pois em meio a tanta dor, as cores foram mais fortes...
Da beleza de um ir e vir, sem lógica nem explicação. Da beleza de um sentir que
se mistura: o que sinto por ela, o que sinto por mim e o que sinto pelos nossos.
Se existe um lugar, além de mim, onde nós duas nos encontramos, é nessa música.
E não é pela letra, porque eu nem me preocupo com ela. É pelo que ela provoca
aqui dentro: um sentir, sentir, sentir. Que não tem nada a ver com pensar. E
que, nessa falta de lógica que compõe a nossa história, se explica.
Hoje acordei
depois de dias cansativos, e como sempre me pus a andar descalça pela casa. Eu
tomei o café e fui ouvir o Jack Johnson que dancei ontem à noite, agarrada a
minha insônia e ao meu chá gelado de limão – não conseguia dormir, não mesmo.
Enquanto eu arrastava os poucos móveis de casa tentando recolher as bolinhas da
piscina que improvisei para Hugo brincar, a música me falava sobre mim e sobre
essa minha história que não para. Desprezando o cansaço, o movimento do meu
corpo era disposto e livre. Eu cantava de alegria e saudade, uma saudade
ensolarada. Senti um sorriso no corpo e pensei sobre as manhãs. Não por acaso a
vida é assim, acordar e acreditar que tudo vai ser novo e melhor, sentir que já
está sendo bom, não importa se exatamente do jeito que a gente sonhou. Hoje eu
sou a minha manhã fresca de sol.