Ela por Ele



E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário: por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.
 
 
Dom Casmurro - Machado de Assis

1º ano - Só a Verdade



Havia dias em que até o ar que eu respirava era você. Amanhecia e o Sol lá fora dizia seu nome, o silêncio do sábado chorava sua ausência. Era uma tristeza aguda, nada fazia sentido.
Perder um amor é saber-se falta. O abraço não dado, o telefonema não feito, o último beijo... Eu sabia que aquele seria o último beijo, e essa certeza maltratava. Tanta história, tantos planos, tanta falta pra tanto tempo pela frente. E um amor que doía de tão intenso, passou a doer de ausência, passou a doer de falta. Eu quis muito que você fosse o último homem na minha vida, queria ficar com você pra sempre. A gente sempre dizia que ficaríamos velhinhos juntos, lado à lado, mas o conto se desfez antes mesmo do castelo ser construído.
Sobrava a certeza de que foi melhor assim, e tantas outras certezas ruins que prefiro nem falar. Também sobrava saudade, mas faltas também fazem parte, faltas são a prova da presença. A maior dor que senti neste ano foi quando percebi que você, simplesmente, deixou de fazer falta. Não existe despertador melhor do que um adeus. Eu tive a grande surpresa de ver o tempo passar e a vontade continuar em mim, a vontade de crescer , sem armas, sem farpas... Um sorriso que, hoje, vem de dentro.
Lembra daquela peixinha do "Procurando Nemo"? Ela cantava "Continue a nadar! Continue a nadar!".
Eu nadei, e você também.


Um Beijo Bom, beijos de paz.

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Muito bom ver como mudou desde o PRIMEIRO MÊS.

Trilha Sonora do Dia



Ainda Sobre.



Quando a morte acontece, até que a gente se acostume, ela se repete muitas e seguidas vezes. Ao acordar no dia seguinte, está lá a morte novamente. A cada lembrança, outra morte. E a morte de novo, de novo, de novo e mais uma vez. Até que em nós ela morra de fato — e isso demora. Algumas vezes ela vem mais forte, mais avassaladora, e te dá uma rasteira doce e certeira. 
Para mim, a morte se renova a cada Natal, a cada 19 de agosto e 22 de outubro, a cada reunião de família e a cada dia das mães.

Minha mãe sempre gostou de rosas vermelhas, e eu herdei esse gosto dela assim como outras tantas coisas. Fui visitá-la e parabenizá-la pelo seu dia, e, como boa filha, levei as rosas que ela tanto gosta. Não dei e nem recebi abraços, beijos e nenhum olhar carinhoso. Coloquei as flores sobre um gélido mármore, olhei para uma foto borrada pelo tempo, e disse aos prantos: Feliz Dia das Mães. 

Paz





"Mas eu acredito em finais felizes. Mesmo que o sol não brilhe na manhã, eu também sei que uma hora ele sorrirá para mais um dia clarear. Sei que um amor, por mais triste que sejas, no final, restará uma grande saudade. Não pelo o que ele é, mas pelo o que ele foi."

(Victor Hugo Felipe)

Quero lhe dizer, pequena.



Que de meus irmãos vi trechos de filmes, livros, discos, secos, molhados, laranjas, mecânicas, corpos que falam, escondida atrás da poltrona. Que de minhas primas assisti amores, sandálias de tiras, secadores barulhentos, espelhos indecisos, portões e eu te amos. De meus pais ouvi vozes sem brilho, silêncios velados, o som alto da TV e uma resignada ordem das coisas - mas no meio disso tudo eu vi amor. Quero lhe dizer que de mim mesma vi muito e tanto, sem saber o que fazer com. Que de mim mesma escrevi tentando ler. Que do tempo entendi sermos feitos de medos iguais. Que dos fins, vi começos. Que, das férias, vi ilusões. De cortinas que se fechavam, vi se abrirem outras. Que os medos que tenho hoje não são outros dos que me viram crescer. Que os meus vinte e poucos eu não sinto. Que você crescendo ao meu lado é exemplo. Quero lhe dizer que não sei. Que ao ter você em meus braços, sinto como se soubesse, e esqueço os meus temores para ser o seu farol. Que ser o seu farol, acende um caminho dentro de mim. Quero lhe dizer que ao tentar ensinar aprendo de novo – ou quem sabe é a primeira vez. Quero lhe dizer o que quero me dizer. Que você é um amor em mim. É afeto melhorado. Que depois de você a vida é brincadeira leve. Que o perigo de te ver crescer é um risco doce. Que a sua respiração me faz voar para bem longe. Que a minha respiração ofegante coloca vírgulas em mim. Que atropelo as vírgulas em busca dos começos que moram depois dos pontos finais. Quero lhe dizer obrigada pelas vírgulas. Porque ao lhe ensinar sobre elas, vou aprender.


Um beijo bom

Titia

Notas de Silêncio





Durante alguns dias em que estivemos separados, minha melhor companhia foi um disco da Cat Power, presente de um amigo que, carinhosamente, desenhou um coração partido na face do cd. Esta música faz parte da categoria das “músicas silenciosas”. Ouço bem alto e ainda sobra espaço para sentir. É música que fala de falta – e por isso mesmo fala de encontro. De uma presença que era o que eu estava tentando encontrar naquela época: a minha própria. Chegar mais perto de mim naqueles dias talvez tenha ajudado a trazê-lo, dias depois. Eu me reencontrava com o mundo, mas não ia só – pela primeira vez na vida, eu me sentia em minha própria companhia. Depois de um tempo, de fato, não estava mais sozinha: me descobri dentro de mim. E então aquela força e aquela alegria que eu sentia sem saber por que, ganharam explicação.


Já uma música do M. Ward, também silenciosa, foi minha companhia numa outra transição. Entre a perda da minha mãe e a chegada de um mundo novo, eu sentia uma mistura que eu não sabia explicar – nem sei se sabia sentir. Essa música me ajudou a chegar no lugar. Minha tristeza se assentou, talvez por finalmente ter se mostrado. E era uma tristeza doce. Uma tristeza em paz. Ouvir essa música me fazia pensar e principalmente sentir tudo isso: a ida dela, sobreposta a uma vida nova, a minha vida. Na confusão absurda daquele momento, essa música parecia me contar a minha própria história.

Tenho lembranças dela no dia de sua partida, principalmente quando tive que ir ao cartório resolver a papelada da certidão de óbito. Um papel, um único papel que atestava a certeza que meu coração insistia em não acreditar. Sentei numa cadeira e coloquei os fones de ouvido, um momento em que me pus a pensar no que fazer naquele dia em que o mundo inteiro trabalhava, e eu tinha parado para esperar o pedaço de folha mais pesado que já se ouviu falar. Naquele dia, sim, senti solidão. Porque a vida das pessoas tinha que continuar, e eu estava diante de um divisor de águas. Nunca mais voltaria a ser a mesma. Minha mãe já não estava ao meu lado para presenciar essa mudança – nem para mudar comigo. Quanta ironia: ela causou a mudança.

Fazia um mês que eu só ouvia esse disco , desde que Miguel o levou para mim de presente. Ele não sabe que foi essa seleção de músicas que me levou para outro lugar. As próprias músicas acabaram se tornando um lugar, que eu visito de vez em quando, para entender de novo o que senti. Para entender, sentindo de novo.

Até hoje, ao ouvir essa música, tenho uma vontade de chorar que não é de tristeza, é de beleza. É disso que ela fala, é disso que fala a minha história, pois em meio a tanta dor, as cores foram mais fortes...
Da beleza de um ir e vir, sem lógica nem explicação. Da beleza de um sentir que se mistura: o que sinto por ela, o que sinto por mim e o que sinto pelos nossos.

Se existe um lugar, além de mim, onde nós duas nos encontramos, é nessa música. E não é pela letra, porque eu nem me preocupo com ela. É pelo que ela provoca aqui dentro: um sentir, sentir, sentir. Que não tem nada a ver com pensar. E que, nessa falta de lógica que compõe a nossa história, se explica.