Enviando Cartas...

Princesinha,
 
Queria estar presente no seu primeiro dia de aula, só para te ver dando esse passo tão importante. Você e seu primo estão crescendo muito rápido, e isso assusta...
 
Titia comprou sua primeira mochila, e sua primeira lancheirinha. São lindas! Comprei também um monte de enfeites para mamãe colocar em seus cabelinhos, você vai ser a garota mas linda da escola! Vou ficar aqui, com Vovô, imaginando Papai indo te deixar na aula, e Mamãe preparando os melhores lanches para você comer na hora do recreio, e os nossos corações vão se encher de saudades.
 
Você e seu primo são os pedacinhos de gente mais amados do mundo!
Espero que um dia você possa ler isto, e compreender, mas principalmente sentir, a qantidade de amor que está depositado nestas palavras, enquanto você não sabe, peça para Mamãe ou Papai ler para você.
 
Te amo muito, my little girl!
 
Um Beijo Bom
Titia

Trecho de Quinta # 36

"…Eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
 
 
A Mão e a Luva - Machado de Assis

Sem saída

É assim todo dia. Toda vez que ouço a sirene de uma ambulância, lembro de ouvir uma sirene que eu sabia ser em vão. De uma última esperança que não pensa, não raciocina, só faz correr para salvar. Lembro dessa burrice bonita que é feita a última esperança. Lembro de um buraco na porta, de uma porta que era só uma das coisas que, naquele momento, me separavam dela. Eu me lembro de lembrar do medo, e então tudo perder o sentido. De uma vontade de estar errada, mesmo cercada por muita verdade. Diante de mim, o silêncio e a não explicação. Atrás de mim, uma despedida que não foi. Acima de minha cabeça, um céu cinzento de realidade. Eu me lembro da dor de pensar que nunca mais haveria resposta. Eu me lembro de imaginar a suavidade violenta que deve ter sido aquele segundo entre o estar e o não estar mais. Eu me lembro da esperança de ainda conferir, como se a qualquer momento a vida pudesse mudar de ideia, como se alguém estivesse prestes a desfazer aquela brincadeira de mau gosto. Eu me lembro de não entender. Entre ela e eu, a vida. A morte. O amor. A saudade.

E como falo

Não falo de um amor perfeito, falo de um amor real. E essa talvez seja uma de suas grandes qualidades. Falo de um encontro, de um acreditar. Não falo de planos, prestação de apartamento, lote para construir, projeto do quarto do bebê. Não falo de planejar a próxima viagem de férias. Falo de uma sinceridade, de um estar inteiro, a cada momento em que se decidia estar. Falo de um sorver a vida como se bebe vinho ou café quentinho. Falo de muitos sins e também dos nãos. Nãos que também eram de amor. Falo de uma certeza que tinha curto prazo de validade, mas renovável a cada dia. Falo de cada novo dia em que era bom não ter a certeza, para de novo merecer o desejo. Falo de um desejo que nascia a cada sol. Falo de uma construção. Falo de amor porque antes falo de amizade. Falo de corações puros, no sentido menos ingênuo da palavra. Falo, não porque ele não está mais aqui. Falo de mim, falo dele, falo de nós. Falo de você.

# Tira de Segunda


Nunca confie numa segunda, nem nas mais bonitinhas.

Made in Mentirinhas.

Trecho de Quinta # 35

E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário: por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.
 
 
Dom Casmurro - Machado de Assis