Cotidiano


Aos poucos a vida vai voltando ao normal, aos poucos tudo vai se encaixando. Aos poucos a menina de dois anos e três meses começa a ficar diferente daquela criança de dois anos, e mais diferente ainda daquele bebê de um ano e meio. Aos poucos a gente explica e ela entende. Aos poucos ela é menos exigente e mais companheira. Aos poucos.
Aos poucos aquele menino de cinco anos começa a ficar diferente daquele menino de quatro anos e meio, e mais diferente ainda daquele menino de quatro. Aos poucos a gente explica, ele entende e quase sempre não aceita. Aos poucos ele se torna mais exigente e menos carinhoso. Aos poucos.

Há uns dias voltei a cozinhar com o mesmo prazer de antes, ao invés de jogar alguma coisa às pressas na panela, exausta com preocupações de trabalho e estudo, gerando noites mal dormidas. Utilizei mão de obra infantil para descascar cenouras. Encontrei uma grande quantidade de cenouras dentro do meu açucareiro.

Cozinhei tudo devagar, por horas. Liquidifiquei, assei, temperei... Tivemos um almoço e tanto, com um sabor de limpar o prato que há muito tempo tivemos saudades. Na hora de lavar e secar a louça utilizei mão de obra infantil mais uma vez. Encontrei conchas e colheres dentro da geladeira.

Aos poucos o perfume de comida preparada pelas nossas mãos está voltando à nossa casa. Aos poucos a gente pensa, planeja, compra, prepara, se alimenta. Ainda há dias em que a pizza comprada pronta entra no forno junto com um potinho de purê de batatas também comprado pronto. Porque eu até sei descascar, cortar, ferver, amassar, temperar e preparar um purê de batata. Mas se eu faço isso tudo não sobra tempo de ler um livro no sofá preferido para a minha menina preferida, nem de ver um filme, no mesmo sofá preferido, com o meu menino preferido.

Prioridades. O sofá vence, sempre.


 

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