Um Segundo

Quando você deita a sua cabecinha no meu ombro como se eu fosse a sua casa, reconheço a sensação. O abraço que você busca em mim, eu buscava na sua avó. Eu era você no ombro dela. Acho que família é feita dessa alquimia, que junta duas pessoas de dois mundos diferentes para criar um terceiro. Seu pai e sua mãe fizeram a dois esse lugar em que você vive, assim como seus avós fizeram para mim. 
Desde que você e seu primo nasceram, deixei de ser só, virei igual. Tão grande e tão pequena quanto qualquer um. Estou melhor para seguir em frente, levo tão mais comigo. Olho pra frente: sonhos me esperam. Pessoas, surpresas, conquistas, bênçãos. Olho pra frente: você.

Não acordo nem vou dormir lamentando a falta da sua avó. Esbarro nela de vez em quando. Eu vivo, ela falta. Eu vivo, ela falta. Vejo isso em você. Mas talvez para você não falte nada. 

Algumas vezes não a vejo em você, aí não dói, pois não me lembro. Em outras tantas, você me volta um olhar conhecido, com um jeito conhecido – novo por ser seu, mas, ainda assim, dela. Nessas horas, pontadas. Depois passa. Meus olhos para você são de futuro, minha pequena.

Não sei o que é a morte ou o que existe por trás dela. Sei o que fica. Sei que a ordem das coisas foi abençoada. Sei que você já nasceu ganhando, sorrindo, descobrindo.
Mas ela perdeu, princesinha. Isso não muda. E foi por tão pouco. Um triz. Talvez um único segundo.
Um segundo e o que era futuro virou passado, sem ter sido presente. Um segundo e os planos se rearranjaram na pressa, a medida do sonho passou a ser a do possível. Um segundo e a resposta era outra. O passado virou mentira, desapareceu, passou a ocupar o lugar do sonho.
Mas se aquele dia tivesse tido apenas 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Não houvesse aquele tal segundo e talvez passássemos juntas cada fim de semana, ela a preparar mamadeira, a cantar para você enquanto dança pela sala, nós quatro - você, seu primo, eu e ela - a passear pelo supermercado exibindo suas travessuras e discutindo por causa da marca do molho de tomate. Não houvesse esse segundo e eu sofreria menos ao ver um pôr do sol... Sua avó se foi numa tardezinha qualquer, que ficou eternizada pelo lindo pôr do sol que se exibia naquele instante de dor.

Por um segundo, na verdade, não foi a sua avó: foi o sonho que morreu para ela. Conhecer você, ver seu rosto, pegar você no colo e exibir: "minha neta". Um sonho tão certo. Coisas lindas que a mim não foram negadas. Um segundo e somos só nós duas. E um mundo.

Diante do que fluía como um creme, a vida endureceu. Não ficou triste, trágica, dramática. Tornou-se difícil. Como tantos outros, como todos, estou diante da complexidade. Mas não a admito. Quero, corro, rio, penso, crio para que pareça fácil. Não é possível, no meu momento mais bonito não cabe o difícil, só cabe o que flui. Como creme, dança, como cena em slow motion.

Um segundo, muitos e muitos outros. A vida deu voltas à minha volta e não sossegou enquanto não comecei a escrever. Um segundo e estou eu aqui a falar. Com você e com um mundo. E, um dia, você vai crescer e ter maturidade e sensibilidade o suficiente para ler tudo isso e ter só uma certeza: sua avó sempre te amou.

Um beijo bom, My Little Girl

Titia

2 comentários

  1. Promete que não vai se deslumbrar com o que vou dizer? Ok.

    Você está praticamente no nível de algumas figuras tão citadas pela juventude atual, como Tati Bernardi, Clara Averbuck etc. Logo logo chegará ao nível de um Caio Fernando Abreu.

    Só mantenha os pés no chão.

    Beijo bem delicioso, meu bem!

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  2. Lindo, simplesmente perfeito. Adorei me perder em suas linhas, e até tive a sensação de ter vivido tudo com você. Besos :g

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